Colaboração. Essa palavra deu o tom das discussões no painel “Referências Brasileiras em Finanças para o Clima e a Natureza” durante a Semana de Ação Climática do Rio. Moderado por Daniel Contrucci, co-CEO e cofundador da Climate Ventures, o evento focou em como unir esforços e trabalhar em parceria para atrair capital disposto a financiar a agenda climática.

A Embaixadora Tatiana Rosito, Secretária para os Assuntos Internacionais do Ministério das Finanças, afirmou que a Coligação de Ministros das Finanças para a Acção Climática beneficiou do contacto directo com os mercados de capitais, bancos multilaterais e representantes da sociedade civil. O grupo, que já inclui representantes de 37 países, organizações internacionais e equipes consultivas, foi criado especificamente para discutir maneiras de aumentar o financiamento climático global.

“Queremos que as finanças sejam uma solução, não um gargalo. Integrar diferentes estruturas é algo muito especial e ainda mais importante quando falamos de Soluções Baseadas na Natureza (NbS). Os riscos são mais difusos; não controlamos a natureza. Precisamos conhecê-lo melhor, respeitá-lo e devolver o que recebemos”, disse Rosito, acrescentando que somente um “círculo virtuoso” tornará realidade os US$ 1,3 trilhão necessários por ano para o financiamento climático em países em desenvolvimento.

Contrucci mencionou que o Nature Investment Lab (NIL) —do qual a Climate Ventures atua como secretaria— trabalha precisamente para desbloquear investimentos em NbS no Brasil. Lançado em 2024, o NIL opera por meio de forças-tarefa para superar barreiras regulatórias, desenvolver modelos de negócios replicáveis e criar estruturas financeiras inovadoras para esses projetos. Também tem colaborado na concepção dos próximos leilões do Eco Invest, um programa do governo federal para mobilizar capital privado para financiar projetos de transição ecológica.

“O novo mercado de NbS geralmente opera de uma forma que o mercado financeiro tradicional não consegue absorver. O cronograma de investimento é mais longo e envolve créditos de carbono e restauração de área. Faltam estruturas adequadas para financiar estes riscos”, disse ele.

Para Natalia Cerri, gerente do Instituto Itaúsa —um dos membros fundadores do NIL—, o grande desafio é “fazer acontecer” influenciando os processos de tomada de decisão para desbloquear recursos para a NbS: “Precisamos manter uma postura colaborativa, ouvindo ativamente o campo, participando desses processos e nos mantendo conectados com outras iniciativas que estão surgindo”, disse ela. “NIL é um ponto de encontro para reunir diferentes esforços. É uma orquestração.”

Outro palestrante, Carlos Takahashi, diretor da Associação Brasileira de Entidades Financeiras e do Mercado de Capitais (Anbima), foi ainda mais enfático. Ele afirmou que é necessário aproximar a ciência e a academia do mercado financeiro, mudando a forma como os desafios climáticos são vistos. Além disso, acrescentou que é fundamental conversar com os investidores para entender o que falta para atraí-los: “Essa conversa é essencial, e não é simples nem trivial. Muitas vezes, incentivos e benefícios são criados no lugar errado. Mas os mercados de capitais também têm outras lições a aprender. Não é na Faria Lima [Avenida] que você encontrará soluções de mercado ou atrairá investidores para projetos na Amazônia ou mesmo em uma favela, a cem metros da avenida. Ainda não vemos como tornar esta comunidade viável.”

“As finanças sempre fluem de grande para grande”, acrescentou Martha de Sá, fundadora da Violet e cofundadora da Vert, ambas focadas em viabilizar investimentos em negócios de impacto. Em seu discurso, a executiva disse que 80% dos produtores no Brasil nunca tiveram acesso a linhas de crédito, provavelmente porque não atendem aos requisitos do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf): “É necessário garantir a inclusão financeira dos pequenos produtores e, ao fazê-lo, ajudá-los a evitar o desmatamento de áreas. É uma situação vantajosa para todos os lados, e essa é a parte bonita da NbS. Temos que ganhar escala e velocidade. Precisamos pensar além das finanças combinadas, com políticas públicas e instrumentos regulatórios para promover incentivos.”

Jamie Fergusson, da Corporação Financeira Internacional (IFC), afirmou que o Brasil tem uma grande oportunidade de liderar o mercado de financiamento da natureza. Segundo ele, a IFC —braço do Banco Mundial focado no desenvolvimento do setor privado em países em desenvolvimento— já investiu US$ 25 bilhões este ano em financiamento climático, mas é necessário atrair dinheiro concessional para os setores público e privado— e a única maneira de fazer isso é com projetos de escala comercial.

“O mercado financeiro sustentável pode crescer muito. Mas é necessário reduzir os custos de transação”, afirmou.